Itinerário da Ilusão

A vida por trás dos fatos e das poesias

O filme que nos leva (realmente) à Beira-Mar

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O meu mais novo querido e favorito filme brasileiro é dirigido por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, Beira-Mar ou Seashore (título em inglês) nos arrasta pouco a pouco para dentro dessa história como a maré que te carrega pouco a pouco e de tanto você lutar contra acaba se rendendo a imensidão do mar ou melhor, do filme.

Com esse filme não é diferente. A história se passa em uma casa de praia. Um lugar calmo e um pouco vazio. O diretor preenche esse vazio com as aproximações e descobertas que dois amigos fazem diante um final de semana. O longa afasta o romantismo e mergulha de cabeça nas dúvidas e intrigas. É um filme que demonstra e retrata toda adolescência conturbada e cheia de sentimentos.

O filme foi lançado no último dia 05 e já está em cartaz em diversas salas pelo Brasil (aqui em Vitória-ES as sessões acontecem as 18 horas no Cine Metrópolis, no campus da UFES – Goiabeiras). Beira-Mar já participou de vários festivais como o Toronto LGBT Film Festival e o Taipei Film Festival (e torço para que o próximo festival que ele possa participar seja o do seu coração).

Só pela sinopse você já fica inquieto:

“Martin e Tomaz passam um fim de semana imersos em um universo próprio. Alternando entre distrações corriqueiras e reflexões sobre suas vidas e sua amizade, os garotos se abrigam em uma casa de vidro, à beira de um mar frio e revolto.” (Avante Filmes)

Particularmente esse filme me ganhou pela simplicidade e pelas situações que são bem condizentes com a nossa realidade. O filme me amarrou a trama e a fazer uma análise com a última cena, que é belíssima. Eu que vivo de frente para o mar nunca mais o verei e o ouvirei do mesmo jeito pois, assim como o ator deixou-se mergulhar em um mar revolto de pensamentos e decisões, eu também quero provar dessa ressaca de mar nos mais frios invernos da vida.

Mais humanidade, por favor!

Perambulando pela internet, me deparei com uma história de um menino cujo seu maior sonho era conhecer a praia e isso me fez pensar o quão bobo eu sou por querer demais, querer além daquilo que me vem e posso ter. Comecei a pensar na felicidade do menino em saber que a água era salgada, de ver a infinitude do mar e de quão grande ele parece ser.

Pensei na minha vida, como eu me sinto diante de um “não” ou quando quero algo sem necessidade. Pensei na vida daqueles que o “não” é rotina, pensei naqueles que pedem somente um pedaço de pão ou uma blusa de frio, porque não pode comprar. Pensei naqueles que não tem casa, família ou alguém com quem possa estar. Pensei nas mães que veem seus filhos pedindo o básico e nem o básico é capaz de dar a eles. Pensei naqueles que só tem o papelão para se cobrir ou para morar.

Pensei em todas as vezes que fui egoísta, só pensei em mim e me recusei a pensar um pouco no outro. Pensei em quantas vezes discriminei alguém pelo jeito que se vestia e vivia. Pensei nas vezes que tive vontade de ajudar mas por conveniência “deixei passar”. Pensei em como as pessoas conseguem viver suas vidas sem perceber no próximo você mesmo. Pensei e vejo como o ser humano cada vez mais se individualiza. Pensei também nas pessoas que só reclamam da economia, de não poder trocar seu carro todo ano, que não poderá mais viajar para Miami, que não poderá comprar mais um apartamento ou trocar de celular.

Depois de tanto pensar, eu me perguntei como pode existir tanto ser humano sem nenhuma humanidade? Como pode existir tantas pessoas vazias? Como pode existir tanto corpo sem nenhum calor? Como pode existir uma sociedade sem pudor? Como não ajudar aquele que tem dor? E como não saciar a fome daquele que sofre? Vivemos em um mundo de tolos e no qual as únicas coisas que se importam, se não são seus próprios umbigos, é o dinheiro do outro.

O preconceito nosso de cada dia nos dai hoje

Os movimentos sociais estão em evidência e vem crescendo gradativamente. As lutas por igualdade, transparência e o fim da corrupção são só alguns dos muitos desejos, não só dos movimentos, mas também da sociedade.

Mas quando algo ou alguém se destoa do meio, a situação muda. Algo que você faz com seu próprio corpo vira motivo de evidência e chacota. Eu mesmo estive nessa situação, só por pintar meu cabelo para loiro fui severamente criticado e ouvi desde “cabelo de miojo”, “você pode ser acusado de tráfico” a “alisa que fica pior”. É incrível como essas “brincadeirinhas” ainda existem com intuito de criar um discurso de ódio e preconceito.

Pude perceber que esse preconceito se enraizou e cravou em nossa sociedade, oprimindo não só aqueles que se diferenciam mas também daqueles que estão do lado dos oprimidos. A sociedade quer mudança mas não procura mudar. Colocam a culpa nas minorias, nos negros, nos marginalizados, nos homossexuais e em tantos outros calados e mascarados por essa sociedade que se julga justa. Fui motivo de chacota não só por parte daqueles que chamo de amigos (não sei nem se posso considerar mais) mas também pelos olhares de estranhos e da minha sala de Direito da faculdade. A sociedade está tão preocupada com o que o outro faz e acaba se esquecendo do que ela acaba fazendo.

Em momento nenhum pedi aprovação, conselho ou muito menos que gostassem da cor do meu cabelo. Fiz porque achei certo fazer e antes de qualquer palavra que seja exposta para fora da boca, formule-a dentro de sua mente e acima de tudo entenda como a pessoa se sentirá com sua opinião.

Entendam: vocês não controlam e nem decidem sobre a vida de ninguém. Eu prefiro o silêncio do que a ignorância de vocês. 

Amor capitalista

Atenção! O amor está a venda.

Hoje em dia tudo se compra. Quando não é com dinheiro, é com beleza. A aparência é tudo hoje em dia, afinal quem irá querer demonstrar aquele amor duro, do dia a dia, da convivência carnal?

O amor virou consequência da beleza que é fantasiar o amor sofrido. Comercializamos ele de acordo com as nossas preferências e cobramos do outro aquilo que nós não temos. Se quer cada vez mais que o outro ame mas não amamos (e muitas vezes não nos amamos primeiro). Essa situação acaba colocando um valor no amor, acaba virando um produto de desejo, no qual usamos por um tempo e vemos que já está velho, despedaçando e quebrado, simplesmente jogamos fora e saímos a procura de outro. Construímos uma sociedade de corações quebrados e ainda reclamamos que hoje em dia ninguém mais ama.

Globalizaram o amor. Ele foi consumido pelo capitalismo feroz. Queremos independência emocional mas queremos alguém que se apaixone por nós. Queremos que o outro esteja a nosso dispor mas não nos dispomos. Há uma controvérsia, uma quebra de sentido e uma super valorização de uma mentira que de tanto se repetir, virou uma verdade.

Essas mentiras “verdadeiras” servem de desculpas, de empecilho para que um sentimento tão abstrato e concreto surja. Promovemos um discurso sujo e acabamos sempre culpando o outro. Só olhamos pra nós mesmos quando o que sempre fizemos com o outro, acontece com a gente. Vivemos em um ciclo de negação e desmoralização onde ser amado é somente o que importa.

A verdade é que querem amor e não amar. Querem demonstração mas não sentimento. Querem, em uma comparação simples, matar a fome sem comer. Querem estar aqui sem existir. Amar é a 1ª pessoa do plural, se você ainda não saiu da 1ª pessoa do singular, não espere amar.

Futuro? Acho que não.

O futuro a nós pertence?

A nós não, aos nossos pais. Afinal, a esperança deles é a de que nós, filhos, consigamos aquilo que eles não conseguiram na própria vida. É a esperança de que façamos escolhas baseadas nas frustrações e decepções passadas. Frustrações aquelas que ficam remoendo e acabam se tornando um parasita na vida dos filhos. A escolha não é mais singular, agora elas são plurais.

A sua vontade não mais importa, o que é levado em consideração é, no final das contas, o bem comum familiar. Se sua família se sentir bem com suas escolhas, então todos te apóiam; caso contrário sua escolha nunca teria existido.

As pessoas acabam sendo cegadas pelo desejo de riqueza, bem estar aparente e principalmente por disputas internas na família. Acabam querendo que você seja melhor que um primo ou qualquer outro familiar e se esquecem que sem paixão pela profissão (não importa qual seja) você para. E pior, frustra não só você como no futuro frustra seu filho por não conseguir aquilo que você não conseguiu quando teve a chance.

É fácil querer decidir o futuro alheio não é? Pois só são constituídos de falas e planos, a ação que fica por nossa conta que é avassaladora. Rígida e narcisista. E ao mesmo tempo, sufocante. E acaba retirando de nós, o que temos de mais vibrante: o futuro.

Em um segundo temos que aprender tudo de novo. Aprender a se adaptar, a aceitar e a recomeçar. Mudar de caminho sabendo que devia caminhar em outro.

No fim de tudo, só anseio que eu seja feliz e realizado fazendo algo que eu goste e não fazendo algo que os outros gostem de me ver fazendo.

Oceanizar-te

Deixa eu te poemizar?

Te colocar no papel,

Te revirar, te mexer,

Como você me mexeu.

Te fazer de gato e sapato.

Te oceanizar,

Te (a)mar

E te navegar.

Te trazer pra perto,

Te transformar em verso

E te fazer feliz.

O Despertar da Escuridão – Parte 1

Tudo começou numa bela tarde de outono, um sábado ensolarado com brisas geladas. Um belo sinal da natureza de que o inverno estava próximo. Havia um bosque imenso, repleto de árvores e arbustos, cheio de folhas espalhadas no chão. Tinha um tom laranja avermelhado das folhas que já e estavam quase secas.

Perto dali havia uma casa, não muito grande. Era uma casa de campo bem modesta para aquela paisagem. Havia mais ou menos quatro quartos e dois banheiros na qual uma família passava suas férias na tranquilidade (ou a que costumava ter).

Marcos, Helena, Beatriz e Anna eram uma família como várias outras, tinham boas condições e adoravam viajar. Sempre que pudiam se reuniam na casa de campo para desfrutar da paz do interior, longe do barulho caótico da cidade.

Quando chegaram na casa fizeram o habitual, desfizeram as malas, arrumaram os quartos e foram todos para a sala de estar para desfrutar da lareira que estava acesa. Depois de boas risadas e vários assuntos todos se recolheram e foram se deitar.

Passadas algumas horas, Helena ouvira um barulho que para a maioria das pessoas seria uma simples pertubação do campo, um bicho talvez. Mas ela sabia que não podia ser, desconfiava de algo maior e pesado, que sabia andar sobre dois pés. E assim desceu as escadas devagar, tomando todo o cuidado necessário para não levantar suspeitas de que estava investigando um barulho no meio da noite.

Seguindo os sons que ouvia foi andando devagar, sem pressa e com a maior cautela que podia para descobrir aquilo que a acordara no meio da noite.

Olhou, investigou e bisbilhotou mas não encontrou nada. Absolutamente nada. Dada por satisfeita voltou a cama com a consciência limpa. Mas o que estava ali não tinha ido embora, ainda não era sua hora de ir e não iria sair dali enquanto não conseguisse o que queria. Não mediria esforços para conseguir e ansiava por aquilo há muito tempo e a hora de buscá-lo havia chegado.